Ao certo não sei porquê… Talvez pela escala, por sentir no corpo, pela constante proximidade e intimidade, por ser um diálogo pequeno, por ter o transbordo do quotidiano. Esta comunicação que me permite encontrar o conhecimento de alguma coisa, que não pode ser descrita por palavras, em que o verbo é matéria plástica, acompanha-me desde que me lembro. Ainda criança pequena, usava um lenço de mão que encostava à cara para dormir.
Agora, quase sempre uso ouro nas jóias que concebo, talvez seja o que há de mais constante desde que comecei a trabalhar. Fixar-me neste material exige esforço, uma necessidade real, de precisar mesmo de fazer, de premência que se sobrepõe a outras necessidades. Metal do sol, do eterno, do resistente, do que tem uma boa relação com a pele, do que por si só é uma afirmação. Talvez seja nesta oscilação entre aquele pano fino quase a desfazer-se, de grande fragilidade, e a temperatura dura, pesada e fria do metal, que me é permitido encontrar a formalização e a utilidade da jóia.
Ana Albuquerque
Abril, 2025